Blog do Dr. André Mansur

Se eu fosse Giane…

Escrito por Patricia Sales em 29 de agosto de 2017

se-eu-fosse-giane

O ator global Reynaldo Gianecchini foi supostamente flagrado beijando um homem não identificado nas praias de Ibiza.

Fotos divulgadas por algum paparasno insinuam momentos de intimidade entre o suposto casal.

As fotos, diga-se, são de baixa qualidade técnica e moral.

Tecnicamente, o material divulgado não permite concluir se, de fato, seria o ator da Globo. A baixa nitidez e a longa distância do fotógrafo à cena afetam totalmente a noção de profundidade, tornando as fotos imprestáveis para o fim desprezível a que se destinavam.

Moralmente, nem precisa se aprofundar muito.

Mesmo sem saber se o protagonista famoso das cenas seria, de fato, Giane (como o chamam seus amigos), ou se se tratava de uma cena de intimidade ou de amizade, entre amigos, “jogaram” as imagens nas redes sociais, afirmando serem a tão esperada comprovação das suspeitas da homossexualidade de Reynaldo Gianecchini.

Pouca coisa tenho a dizer sobre quem divulga esse tipo de imagens, de forma irresponsável, visando ganhar fama e notoriedade, ou dinheiro, já que muitas publicações pagam caro por tais “furos”.

Quem vende lixo, sabe o o mercado que tem.

O que mais me chamou a atenção, de fato, foi a repercussão das imagens nas redes sociais, que demonstra uma hipocrisia latente de muitas pessoas.

No mundo do politicamente correto radical, onde é quase ofensivo criticar qualquer relação de natureza homossexual, qual seria a relevância da cena?

Por que a assessoria de imprensa apressou-se em negar a cena, dizendo se tratar de uma confraternização entre amigos?

As respostas não são tão simples quanto parecem. A liberalidade da sociedade é somente aparente.

E hipócrita!

Muitas das pessoas que afirmam aceitar a diversidade sexual são exatamente as mesmas que deixariam de assistir a novelas ou comprar produtos de um suposto galã, pela simples possibilidade de ele ser homossexual.

Uma dúvida atroz não sai de minha cabeça. Recentemente, a Globo bateu recordes de audiência, ao anunciar o famoso “beijo gay” em uma de suas novelas.

As pessoas queriam muito ver dois atores de mesmo sexo, interpretando os “melhores papéis de suas vidas”, trocando material genético através de um beijo, que a mídia classificou como decepcionante.

A diferença da novela para a vida real é muito grande. No caso acima, os atores seriam heterossexuais interpretando gays.

A cena de Ibiza, entretanto, em que o homossexualismo é potencialmente real, agride o inconsciente coletivo.

Desperta o desprezo velado de uma parcela importante da população, que aceita as relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo apenas no plano hipotético.

Essa, é a mais letal e perigosa forma de homofobia possível.

Gianecchini é um exemplo de vida. Bom moço, esportista, humilde, engajado em causas sociais e um grande ator.

Espiritualizado e amigo, segundo dizem, é um vencedor, em todos os sentidos.

Nada disso, contudo, importaria, perante uma sociedade que julga, condena e executa, de forma vil, cruel e silenciosa.

Se a assessoria de Reynaldo não negasse a cena, que tem chance de ser, sim, um ato de amor entre homens, poderia retirar do ator várias oportunidades profissionais.

A exemplo do que já aconteceu com tantos outros, que sumiram das telas de TV, e encontram-se escondidos, após revelarem o que, na verdade, não seria da conta de ninguém.

Reynaldo Gianecchini, há poucos anos, lutou contra um dos mais agressivos tipos de câncer. Lutou pela vida e venceu!

Se eu fosse o ator, eu simplesmente diria, de viva voz, sem usar uma assessoria de imprensa:

– NÃO É DA CONTA DE NINGUÉM!

Quem enfrentou a morte, certamente tira de letra o preconceito de uma sociedade que reluta em sair do armário da hipocrisia.

Pena que fora das novelas, a realidade seja outra.

Se ele dissesse isso, com letras garrafais, estaria decretando o fim de sua carreira de ator e de galã, sentenciando-se ao esquecimento e ao ostracismo, para sempre.

E a novela da vida real terminaria sem protagonistas, sem atores. Somente espectadores mudos que, dentro de alguns anos perguntariam:

– Afinal, onde foi parar Reynaldo Giannechini?

BH, 29.08.2017
André Mansur Brandão
Presidente da André Mansur Advogados Associados e escritor